Lago de koi: dimensione pelo que entra, não pelo que cabe
“Meu lago tem 10 mil litros, que filtro eu compro?”
É a pergunta errada, e ela produz lagos com filtro grande demais e lagos com filtro pequeno demais — às vezes do mesmo tamanho.
Dois lagos de 10 mil litros, um com dois koi e outro com vinte, não têm nada em comum do ponto de vista do filtro. O que o filtro processa não é água: é amônia. E a amônia vem da ração.
A cadeia, elo por elo
Ração → nitrogênio. Proteína bruta é, por definição, nitrogênio multiplicado por 6,25. Esse fator não é estimativa: é a convenção que define o próprio termo “proteína bruta” em análise de alimentos. Uma ração de 32% de proteína tem 5,12% de nitrogênio.
Nitrogênio → amônia. Parte do nitrogênio vira carne de peixe; o resto é excretado, principalmente como amônia pela brânquia — os peixes excretam amônia direto, não ureia como nós. A fração excretada usada na calculadora é 0,6, e ela está declarada como estimativa de projeto, não como medição.
Amônia → área de mídia. As bactérias nitrificantes vivem em biofilme sobre superfície. A área necessária é a amônia diária dividida pela taxa de nitrificação por metro quadrado.
Área → volume de mídia. Divide-se pela área específica da mídia, que está na embalagem dela.
Com 200 g de ração de 32% por dia, a conta dá cerca de 6,1 g de amônia por dia e, com uma mídia de 600 m²/m³, perto de 20 litros de mídia.
Os dois campos que você deve procurar
A calculadora deixa dois valores como campo em vez de constante, e vale entender por quê.
Área específica da mídia. Está na embalagem, e varia muito: bioball tradicional fica perto de 200 m²/m³, mídia móvel de leito fluidizado passa de 600, e mídia cerâmica porosa costuma declarar valores muito altos — que nem sempre são colonizáveis de verdade, porque poro fechado demais não recebe fluxo nem oxigênio.
Taxa de nitrificação. É o campo mais incerto da página, e está marcado como tal. Ela cai muito com o frio, com pH baixo e com falta de oxigênio. Trate o resultado como ordem de grandeza e projete com folga — filtro biológico grande demais nunca foi problema de ninguém.
A consequência prática no inverno
Se o filtro é dimensionado pela ração, e a ração cai no inverno porque a carpa come menos, então o filtro fica sobrando no frio. Isso é bom.
O que não se faz é o contrário: reduzir mídia no inverno. A população bacteriana leva semanas para se restabelecer, e a primavera chega com o peixe voltando a comer e o filtro sem colônia.
A regra é: ajuste a ração, nunca o filtro. E a calculadora de ração por temperatura é o lugar de fazer esse ajuste — com a ressalva, que está lá, de que as tabelas de percentual por temperatura são convenção da comunidade e discordam entre si.
Uma sequência que importa
Filtro mecânico antes do biológico, sempre.
Sólido em suspensão que chega à mídia biológica faz duas coisas ruins: entope o caminho do fluxo e consome, na decomposição, o oxigênio que a bactéria nitrificante precisa. Um filtro biológico alimentado com água suja trabalha com uma fração da capacidade que a conta previu.
E o UV vem depois do mecânico também, pelo mesmo motivo: água turva absorve a radiação antes de ela chegar ao alvo. A calculadora de UV mostra o quanto a dose cai quando a vazão sobe — e a turbidez tem efeito semelhante, sem aparecer em conta nenhuma.