Espessura de vidro: a coluna da norma que quase todo mundo usa errada
A calculadora mais perigosa deste site é a de espessura de vidro. Se ela errar para menos, o aquário estoura e alaga uma casa. Por isso ela não sai de fórmula de fórum: sai da ABNT NBR 7199:2016, a norma brasileira de vidro na construção civil — a mesma régua que um projetista usa para dimensionar uma fachada.
E a norma tem uma armadilha, que é o assunto deste texto.
A norma cita aquário pelo nome
Vale começar por aí, porque quase ninguém sabe. A nota da Tabela 2 da NBR 7199 lista as aplicações que exigem redundância de projeto:
pisos de vidro, aquários, visores de piscina, onde deve ser prevista, por segurança, a necessidade de um tempo para a evacuação do local ou isolamento de áreas.
Ou seja: para a norma brasileira, um aquário é um caso em que não se pode ter uma única barreira entre a água e a sala. Não é uma opinião de aquarista; está escrito.
A armadilha: tensão admissível depende do tempo
Vidro não tem uma resistência única. Ele tem uma resistência que cai conforme a carga dura mais tempo — é um fenômeno bem conhecido de fadiga estática em materiais frágeis. A Tabela 2 da norma traz uma coluna para cada duração.
Para vidro float apoiado nos quatro lados:
| duração da carga | tensão admissível |
|---|---|
| 3 segundos (rajada de vento) | 23,3 MPa |
| 1 hora | 14,9 MPa |
| 1 dia | 12,4 MPa |
| 1 mês | 10,0 MPa |
| acima de um ano | 7,2 MPa |
Agora a pergunta: qual coluna vale para um aquário?
A água não sai no fim do expediente. Ela fica ali por anos. A coluna é a última: 7,2 MPa.
A coluna de 3 segundos admite 3,2 vezes mais tensão. Usar ela num aquário significa subdimensionar o vidro em quase metade da espessura — e é o erro que boa parte das calculadoras de aquário comete, porque copiaram a fórmula de uma planilha de vidraçaria feita para janela.
A calculadora deste site mostra os dois resultados lado a lado, de propósito: o certo e o que sairia se alguém usasse a coluna errada.
Como a conta é feita aqui
A seção 4.7.3.2 da norma, para vidro apoiado nos quatro lados:
e = √(S × P / 100)
com a área S em metros quadrados, a pressão P em pascals e a espessura em milímetros. Para painéis mais alongados que 2,5 para 1 — o caso de aquários rasos e compridos — a norma troca por outra fórmula.
A pressão que usamos é a hidrostática máxima, a do fundo: densidade × gravidade × altura da lâmina. Isso superestima a carga, porque a pressão real sobre a parede é triangular e vale metade disso na média. É simplificação a favor da segurança, e está escrita na página.
Sobre o fator de segurança: o valor padrão de 1,5 não foi inventado — é o coeficiente que o próprio exemplo resolvido do Anexo D.1 da norma aplica à pressão característica. E o teste automático deste site reproduz esse exemplo a cada build: área de 0,72 m², pressão de 1500 Pa, resultado 3,29 mm. Se a nossa implementação divergir do exemplo da norma, o site não compila.
O que a conta não cobre
Topo livre. A conta supõe o painel apoiado nos quatro lados. Aquário sem travessa superior tem o painel frontal apoiado em três lados, o que é outro caso da norma e pede mais espessura.
Colagem. Espessura certa com silicone errado não resolve nada. A falha por descolamento é tão comum quanto a falha por flexão.
Bordas. Vidro riscado ou lascado na borda tem resistência muito abaixo do que a norma supõe — a trinca sempre começa num defeito de borda. Vidro usado de janela não serve.
Apoio desnivelado. É a causa número um de aquário que trinca sem motivo aparente. Um desnível concentra a carga numa quina, e vidro não perdoa carga de ponta.
Por tudo isso, a página traz um aviso fixo que vale repetir aqui: confirme com o vidraceiro. Esta conta não substitui o dimensionamento de quem vai fabricar o aquário.