Anticloro e cloramina: o que o rótulo não diz
Você trocou 30% da água, dosou o condicionador pelo rótulo, tudo certo. Seis horas depois, o teste de amônia acusa.
Não foi o filtro que falhou. Provavelmente foi a cloramina.
Cloro e cloramina não são a mesma coisa
Muitas concessionárias substituíram o cloro livre por cloramina — cloro combinado com amônia — porque ela é bem mais estável na rede de distribuição e chega com residual até nas pontas mais distantes do sistema.
Ótimo para saúde pública. Complicado para aquário, por dois motivos.
Ela não volatiliza. A prática antiga de deixar a água descansando 24 horas num balde funciona para cloro livre, que evapora. Cloramina fica ali por dias.
Neutralizá-la libera amônia. É a parte que quase nenhum rótulo explica. O tiossulfato de sódio, princípio ativo da maioria dos condicionadores, quebra a ligação entre o cloro e a amônia. O cloro é reduzido — resolvido — e a amônia fica livre na água.
Num aquário maduro, o filtro processa essa amônia. Num aquário recém-montado, numa troca grande ou num aquário com carga alta, ela aparece no teste antes de a bactéria dar conta.
Como saber se é o seu caso
A concessionária publica isso no relatório anual de qualidade da água, que é obrigatório e costuma estar no site dela. Procure por “cloro residual combinado” ou “cloramina”.
É uma consulta de cinco minutos que muda o produto que você precisa comprar.
O que procurar no rótulo
Produtos que tratam cloramina de verdade trazem um segundo componente que liga a amônia liberada, convertendo-a numa forma que o peixe não absorve e que a bactéria ainda consegue processar.
Se o rótulo diz apenas “neutraliza cloro”, provavelmente é tiossulfato puro. Se diz “neutraliza cloro e cloramina” e menciona algo sobre amônia, aí sim.
A conferência estequiométrica
A calculadora deste site devolve duas respostas de propósito.
A dose do rótulo, aplicada ao seu volume real — que é a que você usa. E aqui vale lembrar: dosar pelo volume da caixa em vez do volume real significa aplicar cerca de 45% a mais em um aquário típico.
O teto estequiométrico, que é a conferência. A reação do tiossulfato com cloro é:
Na₂S₂O₃ + 4 Cl₂ + 5 H₂O → 2 NaHSO₄ + 8 HCl
Um mol de tiossulfato reduz quatro mols de cloro molecular. Com as massas atômicas da IUPAC, neutralizar 2 mg/L de cloro em 100 litros pede 0,175 g de tiossulfato penta-hidratado, no mínimo teórico.
Para que serve saber isso? Para conferir. Se o seu produto for tiossulfato e a dose do rótulo entregar menos massa que o teto, ou ele tem outro princípio ativo, ou não dá conta. É a mesma lógica de conferir o teor de um rótulo contra a estequiometria — e é o tipo de checagem que só é possível quando se publica a conta.
Dosar a mais compensa?
Uma sobra pequena não faz mal. Mas excesso grande de tiossulfato consome oxigênio dissolvido — é um agente redutor, afinal. Dobrar a dose é o teto razoável, e só quando há cloramina.
E aumente a aeração durante a troca, especialmente em aquário cheio, em dia quente ou quando você dobrou a dose.